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domingo, 30 de setembro de 2012

União Europeia: Unir o que a crise separou




A construção da UE assemelhou-se, até a um certo ponto, a um bom casamento. Foi feita com base em cedências mútuas, com acordos que pretendiam salvaguardar a integração europeia. Falo sim, por muito polémicos que tenham sido, dos fundos europeus que permitiram desenvolver Portugal (e outros países periféricos) e aproximá-los do resto de Europa. Apesar de ter havido alguma má gestão dos recursos fornecidos, houve sem dúvida uma grande evolução económica.

Esse casamento teve o seu primeiro grande abalo económico depois da adopção do euro. O Sul, desejoso de fugir à pobreza que o marcava desde o século XVII, viu nas condições fornecidas pela moeda única uma maneira fácil de escalar até ao topo. Juros baixos e uma moeda forte prometiam mundos e fundos. Perigosa ilusão. Os países endividaram-se e não conseguiram resistir ao teste de fogo, que foi a crise mundial em 2008, com a inevitável pressão dos mercados.

A questão põe-se: porque é que a crise afectou especialmente a Europa? A resposta é assustadoramente simples. Porque, e como explica George Soros, o problema da Europa seria antes político que económico. Em tom proverbial: pôs-se a carroça à frente dos bois.

Deu-se então a divisão da União. Credores e devedores. Norte e Sul. Surge outra pergunta. Como desfazer este nó górdio? A solução está onde sempre esteve. Em Berlim e Bruxelas.

 Em Berlim, porque este é o líder natural desta União. Os alemães conhecem bem as suas forças, mas também estão cientes das suas limitações. Demasiado grandes para a Europa, demasiado pequenos para serem um grande actor mundial. Precisam da Europa e, verdade seja dita, a Europa precisa deles. Aos alemães cabe grande parte do poder e com esse, já dizia o tio do homem-aranha, vem grande responsabilidade. A Alemanha deverá abdicar da sua taxa de juro negativa e mutualizá-la. Tem também que convencer os restantes países credores a acompanhá-los.

Quanto aos devedores, terão que aprender a racionalizar. A verdade é que a austeridade é um caminho inevitável. Quem o nega ou é ignorante ou demagogo. Não creio contudo que haja o famigerado moral hazard, por parte dos países devedores. O perigo moral de os países voltarem ao “regabofe” é infundado. Esta amostra das consequências de certos desmandos já terá sido suficiente. Sei contudo, que tal acordo tácito não será suficiente para sossegar alemães, finlandeses ou holandeses. Sim, julgo que será necessário controlo orçamental por parte de Bruxelas.

E é precisamente a Bruxelas cabe a coordenação de todo este processo. A cura desta desunião europeia é tarefa hercúlea, mas possível. Exigirá perseverança e coragem, por parte dos líderes europeus. Não será feita da noite para o dia. Pedirá ao BCE que aja, descansando os mercados, enquanto as verdadeiras reformas são feitas. Os países devedores terão que ser austeros (q.b. claro); e os credores solidários.

Tudo isto é necessário para salvar um casamento promissor e um projecto ambicioso. Mas, antes de mais, há uma palavra que se impõe: Democracia.

sábado, 4 de agosto de 2012

BCE: Liberal ma non troppo?


Milton Friedman, um dos maiores senão o maior teórico do neoliberalismo, escreveu um livro, onde expõe todo o seu pensamento económico. Este pensamento influenciou economistas por todo o globo e inspirou as políticas de Mrs. Tatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos EUA (de quem foi aliás conselheiro).
Mas, o que me leva a escrever sobre Mr. Friedman neste post é mais do que apenas traçar o seu percurso. É elucidar os leitores sobre as opiniões dele acerca de um dos maiores entraves na política económica do BCE. Escolho Friedman para “aconselhar” Mario Draghi porque sei que este e a políticas do BCE bebem das ideias do prémio Nobel da Economia.
Algures no seu livro “Liberdade para Escolher”, Friedman faz um apanhado sobre as causas que levaram à crise de 1929 e critica fortemente a Reserva Federal Americana (vulgo Fed) pelas políticas adoptadas aquando da crise bancária e monetária. Numa das passagens, Friedman diz abertamente que “quando se deu o colapso, o New York Federal Reserve Bank (…) agiu imediatamente por sua conta no sentido de amortecer o choque, adquirindo títulos do Estado, aumentando desse modo as reservas dos bancos. Isso, por sua vez permitiu aos bancos comerciais amortecer o choque concedendo empréstimos adicionais a firmas cotadas…” Mas, segundo o economista, esta disposição do Fed foi sol de pouca dura e o “Banco Central” americano acabou por fazer menos do que o necessário. “A Reserva Federal poderia ter providenciado uma solução muito melhor caso tivesse promovido aquisições em larga escala, em mercado aberto de obrigações do Estado”, diz.
Noutro parágrafo, Milton Friedman relembra o que a timidez no que toca à expansão monetária pode fazer em tempos de crise. O economista diz que “em vez de compensar, num grau superior ao habitual, para compensar a contracção, a Reserva Federal começou a diminuição lenta da massa monetária ao longo de 1930” sendo que “o efeito combinado do rescaldo do colapso do mercado bolsista e o lento declínio da quantidade de dinheiro em circulação (…) foi uma recessão bastante severa”.
Friedman culmina a sua dissertação, criticando as políticas “hesitantes” do Fed, na altura da Grande Depressão. Na “nossa” Grande Depressão actual, as críticas ao BCE são semelhantes. Se nos EUA a coisa se recompôs, na Europa o risco é maior. A crise arrisca a levar consigo a zona euro e mesmo a União Europeia. A questão é: é o BCE liberal apenas no que lhe interessa? Porque não ouvem o guru da ideologia que, veladamente, seguem? Temos um BCE liberal ma non troppo?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A bola está com Draghi

Aos soluços, Mario Draghi lá vai vislumbrando uma solução: o governador do BCE, antes tão pró-alemão, começa a render-se às evidências. O Banco Central Europeu não pode continuar a fechar os olhos. Os mercados (essas entidades abstractas) salivam cada vez que se ouve falar em juros da dívida dos países periféricos. Mesmo a alegria de Vitor Gaspar foi sol de pouca dura. Depois de os juros da dívida portuguesa terem diminuído, subiram logo na semana seguinte (uma amostra da “racionalidade” dos mercados). Draghi sabe (há muito) que não pode esperar que estes, simplesmente, se “equilibrem” (já Keynes o dizia). Por isso, e antes de se instituírem reformas mais profundas como uma regulação a sério dos mercados financeiros, são necessárias medidas urgentes. A acreditar no que vai surgindo na comunicação social Draghi e o BCE para lá caminham. Não pelo seu próprio pé, mas arrastados pela força das circunstâncias. Compra mais arrojada da dívida nos mercados secundários e o famigerado “quantative easing”, que basicamente levaria o BCE a criar dinheiro e injectá-lo na economia. Claro que, outras medidas como a mutualização da dívida acima dos 60% (os famigerados eurobonds) e a revisão das taxas de juro dos países intervencionados pela instituições internacionais não foram faladas. Mas aí, a competência já é conjunta, mas creio que, a seu tempo lá chegaremos. Disse Draghi que, na reunião de governadores dos bancos centrais, estas medidas obtiveram uma votação quase unânime. Digo quase porque houve um governador que votou contra. O Bundesbank, através do seu governador Jens Weidmann opôs-se a estas medidas. Não pretendo, de maneira nenhuma demonizar os alemães. Isso além de demagógico, é perigoso. A Europa não pode correr o risco de ostracizar os alemães. É imperioso que estes se empenhem no projecto europeu e que não se voltem para dentro. Recordamo-nos dos perigos que o nacionalismo alemão pode trazer. Mas, voltando à posição alemã, devo dizer que ela é compreensível. Esta técnica do “quantative easing” acarreta o fantasma da inflação. Os alemães têm má memória de períodos inflacionistas: dizem que foi a machadada final na República de Weimar e, consequentemente, levou à ascensão do senhor que prometia todas as soluções, até aquela que apelidou de Final. Falo de Adolf Hitler, claro. Agora e socorrendo-me, na opinião de Martin Wolf, colunista do Finantial Times, devo informar Jens Weidmann e todos os restantes alemães que não foi necessariamente a inflação que levou Hitler ao poder. Foi sim a brutal política de austeridade imposta por Heinrich Brüni, entre 1930 e 1932 que levou Hitler a ter maior votação. Nos nossos dias, vejamos as apostas que os gregos, desesperados por soluções políticas não convencionais, fizeram. Estamos a jogar um jogo perigoso na Europa. Marx dizia que a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Desta vez, se ela se repetir, a farsa será, certamente, grande. Mas a tragédia conseguirá ser ainda maior.
 
O Talho da Esquina © 2012