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sábado, 25 de agosto de 2012

Privatizações: Estamos a assistir ao PREC de direita?


Dizem-nos que estamos a viver os tempos mais conturbados politicamente desde o 25 de Abril. Dadas as minhas limitações etárias, não vivi esses tempos. Mas, pelo que leio, consigo denotar algumas semelhanças entre os dois períodos. Vivemos um período de forte conotação ideológica. Mas se, no pós-74, houve uma tentativa de imposição de modelos comunistas, hoje tenta-se o oposto do espectro político. Quem manda são os liberais.

Vejamos as comparações: em 75 temos um governo tendencialmente de extrema-esquerda, liderado por Vasco Gonçalves, coadjuvado ideologicamente por Cunhal. Hoje temos, Pedro Passos Coelho, “backgrounded” pelo seu consultor, António Borges, o "ideólogo” do governo PSD/CDS. Depois temos a grande dicotomia entre estes dois sistemas, que se afiguram como o calcanhar de Aquiles económico de ambos. Uns nacionalizaram tudo e em força. Os outros privatizam-no.

O engraçado é que, e acreditando em experiências anteriores, ambos estão votados ao fracasso. Depois, à semelhança do que se passava com o PCP nos anos 70, que tinha o beneplácito da URSS, também o PREC de direita tem a aquiescência de entidades internacionais. Por acaso têm um nome bem soviético. Troika.

Aqueles que julgam que no nacionalizar a todo o custo é que está o ganho, relembro-vos uma singularidade da União Soviética. Era dada uma pequena percentagem de terreno aos camponeses para cultivar o seu campo e comercializar o que era produzido. Engraçado que dessa minúscula parcela resultava grande parte da produção agrícola da URSS. É um pequeno exemplo que mostra a força da iniciativa privada.

Apesar de criticar a gula “privatizacional” liberal já a seguir, atrevo-me a citar um conceituadíssimo economista deste quadrante político, nada mais, nada menos que Adam Smith. "Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse."

Já mais à direita, aconselharia os responsáveis que vêem em toda a privatização a solução para todos os males, a espreitarem o que se passou noutros países. Com ou sem intervenção do FMI, na Rússia pós-comunista, na Alemanha Oriental pós-reunificação e noutros casos, as consequências de privatizações em catadupa foram contraproducentes.

Agora perguntam-me: Há outra via? Claro que há outra via. Há sempre a opção de ter um Estado forte (e não necessariamente pesado), com posições de relevo nos sectores relevantes da economia. Olhe-se, por exemplo, para os fundamentos da social-democracia nórdica. Já nós portugueses parecemos predispostos a navegar entre PREC´s. Talvez esteja nos nossos genes. Gostamos da comida picante, coisas fortes, extremamente doces ou fortemente salgadas. Adoramos os extremos. Por um momento sabem bem. Mas acabam por fazer mal à saúde.

domingo, 5 de agosto de 2012

O culto da distopia





A lengalenga tem ganho força nos últimos tempos. Vivemos acima das nossas possibilidades, dizem. O culto da pobreza, tão em voga nos tempos do salazarismo (não quero com isto fazer comparações noutros patamares) voltou em força. As personalidades que a invocam vão desde o Presidente da República, passando por António Borges (que falará por experiência própria) e culmina agora no Presidente da Associação Comercial de Lisboa, Bruno Bobone.


O dirigente da ACL assina no jornal Sol de 3 de Agosto de 2012, um artigo de opinião com o sugestivo nome de “Já não estamos em crise!”. Diz Bruno Bobone que “a situação de crise não é mais do que uma nova realidade em que temos de aprender a viver”, chegando a contar um episódio em que um diplomata sul-americano fica maravilhado com as infra-estruturas que encontrou no continente europeu. Diz, veladamente, que os europeus se queixam mas que têm um nível de vida que “ainda se mantêm acima do nível da maioria dos restantes no mundo”. Vejo nas palavras deste senhor um espírito que se tem acentuado, ultimamente, um pouco por toda a Europa. Chamo-lhe o culto da distopia. Um continente que, no pós-guerra, pautou por querer criar um modelo civilizacional progressista, invejado em todo o mundo (prova disso é o fluxo migratório de outros continentes para a Europa), está agora a ver-se dominado por pessimistas nada inocentes. Ansiando por um regime ao estilo chinês, em que as empresas prosperam e os trabalhadores desesperam, inundam a comunicação social com falsas premissas da vida abastada que os europeus (ou os portugueses) têm levado.


Bastará a estes senhores colocarem os pés fora do seu escritório para perceberem onde nos leva esta “nova realidade”. Com o desemprego a ultrapassar os 15%, jovens a trabalhar com contractos precários e pensionistas a viverem com reformas que muitas vezes não ultrapassam os 300 euros, vemos, lentamente, a morte de um ideal. A Europa do “Welfare State”, regida por critérios de bem-estar social desaparece lentamente. Têm toda a razão alguns comentadores, filósofos, economistas e políticos quando dizem que o cerne desta crise não é financeira, nem económica. É sim de valores. E isso, torna-a muito mais perigosa.


 
O Talho da Esquina © 2012